Segunda rodada da Copa transforma pelada em jogão e esquenta ânimos
Embalos de sábado fazem o primeiro eliminado - os desorganizados Camarões - e dão classificação antecipada à Holanda no grupo E
Por Pedro Só
Rio de Janeiro
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Para o jornal argentino "Clarín" e outros veículos sérios da imprensa internacional, foi a melhor partida desta Copa. Para especialistas na parte tática, diletantes ou profissionais, não passou de um peladão. O gol que definiu tudo se deu aos 15 minutos do segundo tempo: Kjaer enfiou uma bola de 30 metros, Dennis Rommedahl pegou pela enésima vez a faixa seletiva no lado esquerdo da defesa camaronesa e acelerou. Chegou antes do apoiador Makoun, ficou frente a frente com ele dentro da área e nem precisou driblar: Cortou para o meio, ajeitando para a perna esquerda. Numa inversão de clichês, o camaronês ficou "cimentado" no chão, sem reação diante do arisco ponta-direita dinamarquês. É, ponta-direita. Rommedahl joga pelo Ajax, na Holanda, onde ainda se usa isso, essa arcaica posição.
E foi por ali que ele acabou com o jogo Dinamarca 2 x 1 Camarões. No primeiro gol, outro lançamento de Kjaer, cruzamento preciso de Rommedahl e Bendtner, livre na área, empurrou para as redes. Nos dois lances, o lateral-esquedo Assou-Ekotto foi o homem que não estava lá, coadjuvado sempre por alguém que não conseguia fazer direito a cobertura. A cada dez minutos, havia uma savana inteira para correr livre por ali.
Robben pode voltar contra Camarões: é amistoso
E assim a Copa do Mundo inagurou sua fase hello, goodbye. Os embalos deste sábado à noite despacharam os artistas anteriormente conhecidos como Leões Indomáveis e deram à Holanda o conforto de ser a primeira seleção matematicamente garantida nas oitavas de final. Alegria para o astro Robben, que assistiu do banco à vitória de seus companheiros dos Países Baixos sobre o Japão em Durban. Menos pela insossa atuação e mais pelo presente proporcionado, um amistoso contra Camarões para que ele possa recuperar sem estresse o ritmo de jogo perdido com a lesão sofrida a uma semaninha da Copa.
A seleção anteriormente conhecida por Laranja Mecânica deu caldo ralo e algo azedo: após um primeiro tempo pra lá de tedioso, ganhou por 1 a 0 graças a um frango "jabulânico". Sneijder, fenômeno ambidestro, acertou um canhão com sua segunda melhor perna, a canhota, e o goleiro Kawashima, atrasado no pulo, espalmou pra dentro do gol.
Não foi um bom jogo, mas os resmungos dos críticos vão sendo abafados feito grito de torcida em estádio sul-africano. Na primeira rodada, tudo é desculpa: o nervosismo, a bola, o frio, as vuvuzelas, o ronco do companheiro de quarto... Depois disso, busca-se culpados de carne e osso. Perdeu, falhou, ficou na corda bamba? Amizades e pactos são desfeitos, desaforos ecoam pelos vestiários e paredes das concentrações, traições são planejadas e consumadas. É uma selva ali dentro.
Foi o que aconteceu entre os camaroneses. Depois da estreia vexaminosa contra o Japão, tinha rolado levante contra o técnico francês Paul Le Guen, com direito a cornetadas de cartolas, ministros e até enviados da presidência da república. Song, Emana e Geremi entraram no time. O astro Eto'o deixou de brincar de ala e também foi liberado de funções de marcação. Marcou até um gol, a partir de um presente "cereziano" da zagueiro Christian Poulsen. No melhor estilo "eu não sou legal, estou dando mole mesmo", o dinamarquês fez o passe na frente de sua área para o camaronês Webo, que serviu Eto'o. Dez minutos, 1 a 0 para os africanos. Mas o caos tático dos Leões não resistiu por muito tempo. Roger Milla, o legendário atacante que botou o país no mapa do futebol, ainda em 1982, e o goleiro Joseph-Antoine Bell (que esteve em três Copas) já tinham avisado meses antes: com essa bagunça, Camarões não iria longe na Copa.
Por coincidência ou não, o sábado também foi o dia em que o tradicionalíssimo diário parisiense "L'Équipe" estampou na capa cabeludos palavrões desferidos em outra casa da mãe Joana futebolística. "Va te faire enculer, sale fils de pute" (peça ao amigo Google para traduzir), teria dito o atacante Anelka ao técnico Raymond Domenech, cada vez mais desmoralizado, após a derrota para o México.
Antes que algum discípulo do neofascista Jean-Marie Le Pen fale em "africanização" do futebol francês, uma boa notícia para o continente. Apesar de Gana ter empatado em 1 a 1 com uma Austrália reduzida a 10 homens durante boa parte do fraco jogo em Rustemburgo, o país está em primeiro lugar no difícil grupo D. A decisão da vaga, contra a Alemanha, promete ser emocionante. Ainda que venha a ser decidida pela irresponsabilidade tática ou por erros grosseiros. Os elitistas amantes do bom futebol podem não se lembrar, mas começaram suas carreiras e seus "científicos" estudos como humildes apreciadores e participantes de uma boa pelada.
Confira abaixo alguns destaque bizarros dos jogos deste domingo
A BOLA PUNE
Christian Poulsen, da Dinamarca, fez uma lambança terrível no primeiro gol de Camarões (indicado para o prêmio Cerezo de Ouro 2010, junto com o colega grego Torosidis). Depois, tomou um "jabulanaço" nas ideias que quase o botou a nocaute.
CHIMPANZÉ DO DIA
Harry Kewell, da Austrália, corta com o braço o que seria gol de Gana. Expulso, se recusa a admitir que fez o que fez - e o mundo inteiro viu.
TROMBA DO DIA: Okubo, do Japão
Ele mostrou que não era apenas um rostinho bonito com um cabelo estilo "piriguete": tentou várias vezes o gol e teve seus melhores ângulos exibidos em close após cada um dos chutes.
HAKUNA MATATA: Gyan, de Gana
O artilheiro da seleção africana fez mais um gol de pênalti e mostrou que é bom de coreografia.
AVESTRUZ: Kawashima, do Japão
O tiro de Sneijder foi forte, o goleiro pulou antes e acabou espalmando pra dentro. Um legítimo frango africano, encorpado por supostos efeitos "jabulânicos".
LEOPARDO: Schwarzer, da Austrália
O goleirão mostrou dotes felinos e evitou a derrota de sua seleção para Gana fazendo pelo menos uma defesa de antologia.
GUEPARDO: Rommedahl
O ponta dinamarquês correu feito o mais rápido dos animais terrestres na savana aberta deixada pela marcação camaronesa pelo flanco esquerdo.
Guepardos são muito mais velozes que leões; Rommedahl fez um dos gols e o cruzamento para o outro.
Figuraça Torcedor Holana (Foto: Getty Images)FIGURAÇAS: torcedores holandeses
A dupla aí ao lado zoou muito com a policial sul-africana: agarrou por trás e até deu uma abaixadinha no quepe. Não é para qualquer um: só quem já está classificado pode.
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